Filosofia e auto-ajuda
Sêneca e Bernardinho
É comum, no meio acadêmico, a convicção de que a filosofia não se confunde com auto-ajuda. Mas não é tão simples como poderia parecer dar uma explicação para essa certeza tão arraigada. Tudo se passa como se a evidência da coisa nos eximisse de justificá-la, como se a certeza luminosa de que a filosofia não é auto-ajuda jogasse uma sombra sobre as razões nas quais essa convicção se apóia.
Tenho em mãos um livro de Sêneca editado pela L&PM. Trata-se de uma coletânea das cartas que o filósofo romano escreveu para Lucílio. A edição é cuidadosa. A tradução, até onde posso avaliar, é criteriosa, foi feita diretamente do latim por Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanajara Neves Vranas. Ano de publicação: 2008; reedição em 2013.
O que chama a atenção é o título: Aprendendo a viver. O original é: Epistulae morales ad Lucilium. A 4a capa tem por chamada "Como viver a boa vida". Ao fim do texto que apresenta Sêneca ao leitor, lê-se o seguinte:
"Para combater os males do mundo, o filósofo propõe um heroísmo passivo, segundo o qual cada ser humano deve tomar as rédeas da própria vida se quer, enfim, ser verdadeiramente livre".Já a apresentação introdutória assinada por Lúcia Sá Rebello, após informar o leitor sobre a obra e a vida de Sêneca, termina assim:
"Sem dúvida, muitas observações e conclusões que fazem parte dessas cartas poderiam ser aplicadas às inquietudes do mundo atual. Sêneca escreveu as mais belas máximas de pureza da vida; nele se uniram todas as perfeições do pensamento humano, a elevação do espírito e o entusiasmo pela virtude" (Sêneca, Aprendendo a viver. Porto Alegre: 2013, p. 12).Finalmente, nos dados catalográficos temos as seguintes entradas:
"1. Sêneca, ca. 4 a.C-ca. 65 d.C. 2. Estoicos. 3. Conduta [...] . 4. Ética [...]. 5. Filosofia antiga [...]. 6. Cartas espanholas [...]"(Sublinhe-se "Conduta".)
Não resta dúvida, Sêneca está sendo comercializado como "auto-ajuda". E ele está longe de ser caso isolado. Allan Percy, em um lance audacioso e afortunado para si mesmo, cometeu Nietzsche para estressados (GMT, 2011). O livro explora o mesmo filão em que navega Mais Platão, menos Prozac, de Lou Marinoff (Record, 2001), outro sucesso mundial do gênero. A estratégia de venda, nos dois casos, é reunir filosofia e aplicação prática, como diz este release publicado no blog da Veja:
"NIETZSCHE PARA ESTRESSADOS é um manual inteligente, provocador e estimulante que reúne 99 máximas do gênio alemão e sua aplicação prática a várias situações do dia a dia. A filosofia de Nietzsche é de grande utilidade na busca de uma solução para uma série de problemas, tanto na vida pessoal quanto na profissional" (grifo nosso).Dir-se-ia que o mercado editorial farejou na filosofia um novo segmento, ou antes, viu na filosofia uma forma de ampliar e sofisticar um tradicional e rico veio, o do nicho representado pela auto-ajuda. Como não poderia deixar de ser, essa fusão produz curto-circuitos, como, por exemplo, encontrar na estante das livrarias Sêneca lado a lado com Bernardinho. O problema, porém, permanece de pé. Pois, em princípio, quem melhor que um filósofo para nos auxiliar a viver bem? Não era essa, afinal, a intenção principal de Sêneca ao aconselhar Lucílio? Provavelmente ele não veria mal algum em ser consumido assim, muito pelo contrário. E menos por vaidade do que por convicção de que a filosofia, de fato, pode auxiliar a viver melhor. Se não for para isso, ele diria, para que ela serve?
Nessa direção, recorde-se também que muitas pessoas que se matriculam num curso de filosofia o fazem movidos pela curiosidade em saber qual o sentido da vida, um leitmotiv caro à auto-ajuda. E o fato de que não encontrem nenhuma resposta definitiva não torna sua motivação menos legítima. Pergunte a um professor de filosofia se ela tem ou não algo a dizer sobre temas como "justiça", "verdade", "virtude", etc. Se ele não for um desses que já desconstruiu tudo, provavelmente dirá que sim. Ora, é nesta brecha que, desde a antiguidade, se consolidou a tradição do aconselhamento moral, que une Epicuro, Cícero, Sêneca e Marco Aurélio, dentre outros. Todos eles viam na filosofia uma forma especial de sabedoria, capaz de nos conduzir a uma vida virtuosa e/ou feliz. Convencido disso, o filósofo francês Luc Ferry publicou em 2006, na França, um livro intitulado Apprendre à vivre: Traité de philosophie à l' usage des jeunes générations (Na tradução brasileira: Aprender a viver. Filosofia para os novos tempos. Tradução: Vera L. dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010).
Será que a filosofia está redescobrindo sua verdadeira vocação prática e pode realmente nos ajudar a responder como conseguir realizar uma vida melhor?
O contra-exemplo de Sócrates
A aplicação da filosofia à prática porém, esbarra num consenso oposto, que reza que a filosofia não veio para simplificar, mas complicar as coisas. Os livros didáticos que se prezam começam por advertir que filosofia é igual à reflexão. É difícil saber o que exatamente ocorre com quem reflete demais, mas uma coisa é certa: ele não é a pessoa indicada para consultarmos, se estivermos querendo "uma solução para uma série de problemas". Mesmo que não estejamos com pressa, nada assegura que, ao fim e ao cabo, cheguemos a uma resposta. E o que seria da auto-ajuda sem respostas?
Exatamente a falta de respostas e o excesso de perguntas caracteriza a atuação de Sócrates em um conjunto expressivo dos Diálogos de Platão. São os chamados diálogos "aporéticos", nos quais encontramos Sócrates indagando a seus interlocutores como, afinal, sabem o que sabem. Ao que tudo indica, nisto Platão fez um retrato bastante fiel do Sócrates histórico, pois, conforme outros depoimentos, ele de fato era alguém disposto a problematizar tudo o que via pela frente. É assim que no diálogo Laches, por exemplo, Lisímaco propõe a Nícias que ele submeta ao exame de Sócrates suas ideias sobre a educação da juventude. E Nícias, mais velho que Lisímaco, diz o seguinte:
"É que me pareces desconhecer que quem for muito chegado a Sócrates [por convívio ou parentesco] e vier a falar com ele habitualmente, ainda que, de início, comece a discutir sobre algo diferente, inevitavelmente acabará por ser arrastado para uma conversa em círculo, até cair em dar resposta a perguntas sobre si próprio - como passa atualmente e como viveu a sua vida passada. Depois de aí ter caído, Sócrates não mais o largará antes de tudo ter posto à prova" (Platão, Laques, 187e - 188a, trad. Francisco de Oliveira. Lisboa: Edições 70, 2007, pp. 53-54).
Numa passagem de A República, essa ideia de ser conduzido de cá para lá reaparece nas palavras do próprio Sócrates:
"Não sei ainda, mas por onde o argumento [lógos] nos conduzir, como o vento, para lá deveremos ir" (Platão, A República, 394d).
Veja o comentário feito por Roberto Bolzani Filho, professor da Universidade de São Paulo, que foi quem traduziu esse trecho, como foi citado acima:
"Não se engane: o fato de que o argumento nos conduz 'como o vento' não significa que vamos para qualquer lugar, porque o vento sopraria de maneira sempre imprevista, resultando daí que a investigação não teria rumo certo. Trata-se de uma metáfora que indica que nós, os investigadores, somos conduzidos por caminhos que não escolhemos, definidos pela necessidade interna à argumentação" (V. Figueiredo, L. Repa. J. V. Cuter, R. Bolzani, M. Valentim, P. Vieira Neto, Filosofia: Temas e Percursos. São Paulo: Berlendis & Vertecchia Editores, 2013, pp. 121-122).
Sendo assim, aquilo que Nícias apontava em Laques - ser conduzido de lá para cá na conversa - é, conforme o passo de A República, uma exigência do próprio pensamento, argumento ou discurso (três maneiras lícitas de verter o termo grego lógos). Ora, nem sempre o lógos chega a uma solução. Muitos diá-logos comprovam isso. Pode acontecer, numa conversa, de sermos levados de cá e para lá, de afastar-nos de nossas crenças prévias, de subvertermos as evidências ordinárias, e só. Só? Deixar-se levar assim pelo pensamento, mesmo sem, com isso, chegarmos a um porto seguro - isso já não corresponde a uma experiência moral? Pois tanto a palavra "moral" (morus, em latim), quanto "ética" (ethos, em grego), significam "costumes" em suas línguas de origem. Se a experiência de abandonar-se ao lógos nos conduz a reconsiderar as convicções arraigadas nos costumes, neste caso filosofar é realizar uma reflexão sobre a vida prática e sobre noções que dizem respeito à vida ordinária de todos nós. E isso, mesmo que não se tenha chegado a respostas definitivas. Vai nessa linha a posição de outro autor contemporâneo de grande prestígio junto ao público não especializado, o filósofo britânico Simon Blackburn. A filosofia, ele nos diz, é essencialmente um método de reflexão e indagação sobre noções e conceitos que operam na vida cotidiana, na política, nas ciências e nas artes. Consiste mais em perguntas do que em respostas.
Conclusão
O que concluir desse rápido percurso?
Partimos do prejuízo bem difundido na academia conforme o qual a filosofia nada tem que ver com auto-ajuda. Mas logo vimos que Sêneca, a quem ninguém recusaria o título de filósofo, tem sido editado sob a roupagem da auto-ajuda. E isso, como vimos, não é somente uma manobra de mercado; se Sêneca reaparecesse entre nós, não há dúvida de que se esmeraria para difundir ao máximo os preceitos que, a seu ver, tornariam nossa vida melhor. Mais: vimos que essa noção de filosofia como sabedoria das grandes questões da existência foi e tem sido a razão para que muitos tenham procurado e ainda procurem aproximar-se da filosofia.
De outra parte, também vimos que uma das figuras mais emblemáticas do filósofo, Sócrates, é apresentado por Platão como alguém que mais faz perguntas do que fornece respostas. É verdade que nos Diálogos tardios, como A República, o leitor se depara, ao fim e ao cabo, com uma solução para a questão que motivara o debate. (No caso de A República: "o que é a justiça?") Mas isso só ocorre depois de muitas idas e vindas, depois de muitas e muitas... páginas. O alcance filosófico da solução, conclui-se daí, depende do percurso que conduziu a ela. Não por acaso, bons intérpretes de Platão apontaram que há muito mais filosofia no percurso que conduz à solução, do que na solução por si mesma.
Se, tendo Platão em mente, aceitarmos que a filosofia é o lógos em ação, em seu movimento de idas e vindas, de perspectivação e relativização dos argumentos e contra-argumentos, podemos então arriscar uma primeira resposta a nossa pergunta acerca das relações entre filosofia e auto-ajuda. E a resposta é: a questão foi inicialmente mal colocada!
Pois se filosofia é aquilo que faz pensar, que conduz o leitor por uma trilha sem desfecho certo sob a exigência do rigor e da curiosidade, então encontrar ou não as respostas que procurávamos se torna secundário. É fato que muita literatura de auto-ajuda não admite o que Hegel chamava "a paciência do Conceito". É isso o que explica por que é comum recusarmos ao varejo da auto-ajuda o título de "filosofia". Entretanto, e como dá exemplo Sêneca, a história da filosofia tem capítulos importantes nos quais encontramos respostas para questões tais como, por exemplo, o que fazer para tornar a vida melhor. Pode-se reler esses textos em busca de respostas, mas para que sejam convincentes, é preciso refazer o caminho que conduziu Sêneca a elas. E pode-se também reaver esse caminho como quem desfruta da paisagem que atravessa, sem aderir à "verdade" das conclusões. No primeiro caso, defender as respostas passa por defender que o caminho que levou a elas é o meio correto para viver melhor. Filosofia como salvação.
Eis que, movendo-se de cá para lá, atingimos como conclusão esta outra pergunta: será razoável interpretar a filosofia como um saber que, assim como a religião, mas por outros meios, pode salvar-nos de uma vida infeliz? Sêneca pensava que sim, e não estava sozinho. Mas no intervalo dos séculos que nos separam dele não surgiram boas razões para crer que a filosofia, por mais indispensável que seja na formação educacional dos jovens, não é capaz de satisfazer a expectativas salvíficas?
Algumas referências em torno do assunto, além das já fornecidas acima:
Para Luc Ferry, consulte sua conferência no Café Filosófico da CPFL no link:
Veja também a entrevista de Simon Blackburn no Café Filosófico da CPFL, na qual ele conta, entre outras coisas, por que foi fazer filosofia:
Consulte, em V. Figueiredo, L. Repa. J. V. Cuter, R. Bolzani, M. Valentim, P. Vieira Neto, Filosofia: Temas e Percursos. São Paulo: Berlendis & Vertecchia Editores, 2013, os seguintes trechos:
(i): a "Nota ao leitor"(pp. 8 e 9), que expõe a concepção dos autores sobre a filosofia, recorrendo ao exemplo de Platão.
(ii) "Filosofia, o pensamento e o livro: 15 perguntas e respostas" (pp. 10-13), que desenvolve aspectos mencionados na "Nota ao leitor".
(ii): a Unidade "Liberdade e necessidade" (pp. 224-251), especialmente o módulo: "Estoicismo e a necessidade do universo" (pp. 227-234) em que são apresentadas as teses do estoicismo antigo.
Vale a pena também ler a "Introdução" de Convite à filosofia (São Paulo: Ática, 2012, pp. 10-29), de Marilena Chauí. Nela, a autora investiga a questão: "para que filosofia?" Na página 24, por exemplo, ela define a atividade filosófica como sendo, essencialmente, a prática da indagação.
Eis alguns dos autores da antiguidade concernidos por esse debate e que foram reunidos em um único volume de Os Pensadores:
Epicuro, "Antologia de textos", in: Col. Os Pensadores. (Trad. Agostinho da Silva) São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 1-20.
Lucrécio, "Da natureza", in: Col. Os Pensadores. (Trad. Agostinho da Silva) São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 21-135.
Cícero, "Da república", in: Col. Os Pensadores. (Trad. Amador Cisneiros) São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 137-180)
Sêneca, "Consolação a minha mãe Hévia", in: Col. Os Pensadores. (Trad. Giulio D. Leoni). São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 181-194).
Marco Aurélio, "Meditações", in: Col. Os Pensadores. (Trad. Jaime Bruna). São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 261-319.